terça-feira, 10 de maio de 2016

O Massacre do abraço elétrico


Peguei o ônibus eram umas 11:00. Meia hora de atraso. Murmurinhos e rumores de que; a empresa de ônibus estava falindo, por isso não era raro que se atrasassem assim.
Não era tão confortável quanto os ônibus de viagens que estava acostumado a andar, mas se tivesse que fazer baldeação os outros, eram piores e ficava mais caro, por isso optei por esse mesmo. Apertei o play na playlist de caminhada e aleatoriamente tocava Epica, Nightwish, Lacuna Coil, Sirenia, e até Theatre Of Tragedy. Passou por outras duas minicidades antes do destino final. No destino final, fiquei com muito medo. A cidade era um típico cenário de filme de terror americano. Milharais, cidade muito pequena, habitantes em sua maioria idosos, e para piorar, a cidade tinha um frigorífico de abate. Gelei quando vi a rodoviária, nem guichê para comprar a passagem de volta tinha, eu teria que comprar dentro do ônibus mesmo. Desci do ônibus e mandei um SMS dizendo “já cheguei”, simplesmente isso. Não tinha nada de apelações românticas ou coraçõezinhos, absolutamente nada, apenas um simples e seco “já cheguei”. Esperei algum tempo até que ele chegou. Mais alto do que eu imaginava, rosto firme, postura robusta. O jeito dele, carinhoso, preocupado, romântico, além de suas tatuagens e alargadores haviam me conquistado de primeira. Sua barba crespa dava um ar de mais velho, mas tinha apenas 20 anos. Esse era o problema. Depois que você passa dos 23 os anos passam mais rápido, e fazem sim muita diferença. Dos 20 que ele tinha para meus 26 significaram uma eternidade, de diferenças. Aquilo era muito estranho, muito mesmo. O quarto ele era apaixonante. Posters espalhados por todo o quarto das bandas que eu mais gostava na vida, ele colocou músicas que eu gostava, mas que ele também gostava. Parecia minha alma gêmea.... Parecia. A noite me levou numa praça, já que cidade pequena não tem nada. Chegando aos 30 anos as multidões, praças, boates, bares, e todo e qualquer tipo de aglomeração começam a incomodar. Sem dúvidas eu preferiria ter ficado em casa, assistindo filme, debaixo das cobertas, já que o frio de julho cortava como navalha, e gelava cada vez mais meu nariz. Na praça os amigos dele, era pessoas muito legais, apesar de eu ser bem anti social e evitar falar com qualquer um deles. Ficava de longe observando e calculando quanto tempo mais eu tinha que aguentar aquilo até a hora de ir embora. Não seria ainda muito cedo? Se eu esperasse mais uma meia hora? Mas tínhamos acabado de chegar e eu iria me passar por chato, e estragando a noite de alguém, coisa que sempre acontecia. Preferi não falar em nada de ir embora e fazer cara de quem estava gostado daquilo. Daí a pouco a polícia passou e mandou abaixarem o som. Os amigos dele, preferiram ir para outro lugar, mas nós decidimos ficar ali, junto com uma amiga dele, que estava me dando um pouco mais de atenção, me salvando daquela situação embaraçosa por demais. Seguimos ela até um barzinho mequetrefe lotado de funqueiros. Não tenho nada contra funk, eu inclusive acho importantíssimo por causa de pluralidade de vozes, tema de meu TCC na faculdade. Simplesmente era um tipo de música que eu não gostava. Ele foi para pista dançar, já que ele se auto intitulava “underground”. Eu fiquei lá, encostado num canto com os olhos esbugalhados olhando para os lados, perdido e pedindo aos Orixás que tirassem dali logo. Meu pedido logo foi atendido, mas ele ainda queira ir onde os amigos dele estavam. Despistamos a amiga dele e voltamos para a praça. Sentamos em um banco onde ele ligou para um amigo dele ir nos buscar. Enquanto a carona não chegava ele se virou para mim e disse, já percebendo meu descontentamento:
-O problema é esse, eu gosto de sair, você não.
-Eu até gosto, mas preciso ir embora porque amanhã o ônibus sai cedo e preciso adiantar alguns trabalhos da faculdade. (Eu não tinha ideia do quanto eu mentia bem). Se tivessem outros horários eu ficaria até ás 06:00 na rua.
-Vamos ficar lá meia hora, depois vamos embora eu prometo. – Disse ele.
O lugar, intitulado “terreno baldio”, era uma rua sem saída, com mato dos outros três lados e no fim dela, uma caixa d’agua. Tive a infelicidade de ouvir que; ele já tinha arrombado o portão da caixa d’agua, num dia em que estava “muito louco”. Nesse lugar, o pessoal parava os carros, colocava som alto e ficava lá bebendo até amanhecer. Até hoje não sei o que tem de tão interessante nisso, mas enfim cada louco a sua loucura. Fiquei lá árduas duas horas, até que fomos embora. Fomos para a casa dele, eu estava tão chateado, mas tão chateado que ele esperou que transássemos, mas nem isso tive vontade de fazer, simplesmente virei para o canto e fui tentar dormir, enquanto ele ficou lá mexendo no celular, provavelmente a busca da próxima “presa”. Depois veio e me abraçou e dormimos de “conchina”, mas foi a única coisa que fizemos durante a noite toda. Ele me deu vários abrações apertados, coisa que me deixava ainda mais triste e frustrado, por saber que seriam os últimos e únicos. Amanheceu e fomos para a rodoviária, nem esperei o próximo ônibus, fui no que estava lá mesmo e fiz baldeação, queria era sumir daquela humilhação toda logo. Esperava chegar lá e encontrar um meu príncipe encantado, me recebendo com milhões de beijos e abraços e me levando para cama pela mão, fazendo um jantar à luz de velas, com um filminho legal e um vinho tinto suave. Ou então que me levasse ao cinema da cidade que era ao ar livre, simplório e decadente, coisa que só me faria apaixonar ainda mais. Mas não. A única coisa que recebi, foi um sistema operacional Windows. Lindo, elegante, apaixonante por fora, mas um MS-DOS por dentro. Recebi um cara, que só que queria me fazer de troféu aos amigos dele, insinuando: “Olha quem saiu de sua cidade só para me ver”. Vi um cara festeiro e sem nenhuma perspectiva de vida. Nada. Não sabia o que era uma bienal de arte contemporânea, não sabia quem era Andy Wharol, Frida Khalo. Nunca tinha ido ao MASP, mesmo já tendo ido a São Paulo. Mas de festa, boate, e shows disso ele entedia e muito bem por sinal. Fiquei tão chateado, tão triste, decepcionadíssimo e com um enorme buraco no coração. E dessa vez, não era culpa de ninguém. Será do acaso, ou do destino? Não sei, mas não era minha culpa nem dele. Ele não era errado por ser assim, mas talvez eu fosse. Fiquei chateado e triste, por ser tão difícil achar alguém igual a mim. Mais uma vez eu água, achei óleo. Para uma pessoa que foi ouvindo a playlist de festa, dentro do ônibus as únicas músicas que consegui ouvir na volta foram: Falling Again (Lacuna Coil) White Night Fantasy, While Your Lips Are Still Red (Nightwish). Para o Rivotril fazer efeito mais rápido, chegando em casa destrocei o álbum Imaginaerum – The Score, um convite ao choro que insiste em não cair. Após redigir esse texto tomei um Rivotril ao som desse álbum e dormi feito uma criança. No outro dia, fui trabalhar, e depois fui para faculdade. Me senti um pouco melhor, na verdade muito melhor....

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