segunda-feira, 16 de maio de 2016

O massacre do abraço elétrico parte II

Bem, após o ocorrido minha intuição continuava a me dar sinais de que aquela situação iria se arrastar para o abismo, mas a gente só acredita apanhando. E apanhei. Levei uma surra de sentimentos mal correspondidos. Na semana seguinte, após eu ter voltado pra minha cidade, e para minha rotina, ele continuar a me tratar super bem... Quando ele queria. Me deixava esperando mensagens dele, as vezes via mas não respondia, acho que de propósito. Pois bem, aquilo estava me matando aos poucos por dentro. Ele não sabia o que queria de mim. Simplesmente estava me deixando na reserva, procurando alguém mais interessante, e caso não achasse voltaria pra mim. E ele achou. Só não teve coragem de me dizer que achou, mas minha intuição, e o fato de ser quase dez anos mais velho que ele, me dizia isso. Sem perceber disso tudo o que eu sentia pra ele. Falei tudo, despejei todos os meus sentimentos que por ele, foram pisoteados e esmagados como se faz com a bituca do cigarro. Aliás; que ótima analogia. Eu não consigo me contentar com pouco, sou de amores intensos, ou eu sinto ou eu não sinto, não sei ficar jogando jogos de espera. Não sei fazer ninguém vir atrás de mim. Va lá com essa canalhice que chamam de gelo. "Esnoba que ele vem, ignora que ele vem...". Isso não funciona pra mim, gosto de expor meus sentimentos, fazer a pessoa saber de tudo o que sinto por ela. Mas isso no mundo de hoje afasta as pessoas. Assusta. Ninguém mais sente fortes paixões, emoções não vibram mais, e sentimentos perderam completamente a valia. Após eu me expor pra ele, de uma maneira tão suntuosa, tão elegante, tão vibrante, de forma que eu; achava que ninguém, ninguém pudesse dizer não. Mas ele disse. Por alguns dias ainda quis me dar alguma esperança, mas na fatídica segunda-feira 17, ele me disse. Me deixou de escanteio. Me deu um fora, bonito com direito a frases clichês e mentirosas como se faz hoje em dia. Era tanta canalhice da parte dele, que saíram as melhores perolas do fora digno: "O problema não sou você, sou eu", "Você merece alguém melhor" e é claro não poderia deixar de faltar a mais humilhante de todas: "Ainda podemos ser amigos". Querido, eu tenho Facebook é pra isso, acha mesmo que fui da minha cidade pra sua, passar aquela humilhação pra ter sua amizade? Me poupe, se poupe, nos poupe. Na hora que levei o fora, estava na aula de projeto gráfico, aula que odiava pra piorar ainda mais a situação, se pelo menos fosse teoria da comunicação eu ainda me entretia e ocupava a minha cabeça com algo produtivo. Cheguei em casa, e comecei a pensar. Nunca iria dar certo. Eu sou demais pra ele. Ele não sabe nem escrever direito. Lembro um dia que meu Whatsapp estava atualizando e minha foto some quando isso acontece. Ele mandou a seguinte mensagem:
"Não gostei de vc ter mi bloquiado". Meu Deus, que dialeto é esse? Que porra é essa que esse garoto tá falando?
Não, não poderia dar certo. Eu adoro conversar, chegar dizendo e "E ai como foi seu dia?" "Escuta aqui essa música ouvi e me lembrei de você". "Olha esse chocolate que você gosta vi e comprei pra você". Ele não tinha assunto comigo, e quando tinha eram os mais furados, bestas e sem sentidos do mundo, nem de música ele sabia conversar, e olha que temos o mesmo gosto hein? Mas não, do que iriamos conversar? De que foi na boate? De quem pegou quem? De quantos ele beijou na minhas costas? Porque disso ele sabia bem! O país passando por um processo histórico, e ele totalmente averso a tudo! Como uma pessoa pode ser tão sem opinião assim?! Com quem eu iria discutir Adorno? Com quem eu iria discutir Horkeimer? Com quem eu iria discutir políticas públicas comunicacionais? Chico Buarque, livros do Dan Brown, filmes do Von Trier? Com ninguém, porque ele não sabia e nem fazia questão de saber de nada disso? Era demais pra ele, assim como eu. Sim, foi isso que me confortou. Eu era demais pra ele, intelectualmente e sentimentalmente. Meus sentimentos, tão puros, tão preciosos que ele nunca iria saber o que fazer com toda aquela riqueza. Ele estava acostumado a bijuterias, aço inox, latão, e não meus sentimentos engoldados, brilhantes, chapiscantes como o clipe Firework da Katy Perry, e valiosos demais pra estar em mãos vazias. Ele não poderia me dar nada em troca mesmo, a não ser suas pulseiras da área vip. Professor, independente, criativo, inteligente, apaixonado, sonhador, bravo, em plena segunda graduação superior, que odeia injustiças, esse era eu, mas e ele? Quem ou o que ele era? Títulos honoríficos são pra mim muita coisa, porém não define caráter, mas ele, não tinha nem uma coisa nem outra. Era vazio, seco, oco. Uma capa bonita, numa área semi-árida, sem vida. E assim eu vou colecionando mais uma decepção. Eu disse que odeio injustiças, mas sou injusto comigo mesmo, porque as pessoas só fazem isso porque eu permito. Por outro lado, não acho que é crime sentir, ou querer sentir. Não tive culpa de nascer assim, sempre esperando o melhor dos outros, acreditando nas pessoas, em pleno mundo onde vigora o egoísmo gratuito. Eu era demais pra ele, e ponto final. Pelo menos por hoje, os diazepínicos me farão dormir, mesmo tendo que levantar cedo não estou com um pingo de sono. Foi duro sentir esse gosto amargo da ingratidão, mais uma vez. Mas assim espero ter aprendido mais uma
lição no complexo capitulo do que é ter amor próprio.

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