O segundo colegial sempre é uma história bem formidável, para os mais velhos contar.
Exceto eu. De que tinha dezesseis anos é tudo que me lembro. E, de quando conheci minha melhor amiga pra vida toda.
Luna entrou na sala. Era 10/03-dez de março.
E não sei porque. No mesmo instante, provou dos olhares de aprovação que eu encarava todos os dias.
Muito autêntica, e original. Cabelos tingidos, piercing no rosto. Camisas cortadas. Eu me identifiquei de primeira.
Em seu terceiro dia de aula, Luna e eu conversamos. E não paramos mais. Certo dia, estávamos no intervalo e Luna percebeu
a implicância dos outros alunos comigo.
-Qual o problema deles com você?
-Juro que não sei. Ela me olhou inconformada.
-Eu não intendo. Preferi mudar de assunto. Os dias foram se passando e ficamos cada vez mais próximos.Luna começou
a frequentar minha casa. Morava com meu pais.
Minha relação com eles era bem fechada. Principalmente com meu pai. Minha mãe tentava. Mais sem querer
eu não conseguia dar abertura, e me culpava muito. Ela ignorava. E era muito carinhosa.
Meu pai tentava as vezes. Mas também não fazia muita questão.
Certo dia, depois da aula, Luna pediu que eu acompanhasse a algum lugar.
Era uma praça na classe alta/média da cidade. Luna e eu bebemos, conversamos e rimos bastante.
Quando estávamos a ir embora, o assunto havia acabado. Observávamos atentamente o movimento.
-Eu sou gay! Disse sem exitar.
-Eu percebi mesmo. Cara, isso é ótimo. Vou te apresentar pra um monte de amigo, eu tenho vários amigos gays.
-A gente vai na boate...
-Luna, não. Disse. interrompendo-a
-Como assim, não o que?
-Meus pais não sabem. Contei só pra você.
-Mais não é por isso que te "excluem" no colégio?
-É sim. Eu não sei porque, nem como. Mais de alguma forma sabem.
-Então fui a primeira a saber?
-Sim.
-Cara isso é MARAA!! Ela disse abrindo um sorriso e olhando para cima.
-Eu vou contar pros meus filhos. E depois pros meu netos.
-Sua boba. Eu disse.
-Queria contar pra todo mundo. Dizer pros meus pais.
-Não aguento mais ter que viver aqui dentro.
-Fingir ser o que eu não sou. inventar namoradas.
-E sentir medo. isso é tortura. Tenho muito medo que descobrem.
-E quero acabar com de uma vez por todas.
-Vai ser fácil. Disse ela.
-Eu comecei a frequentar sua casa, a gente fica no quarto, com a porta fechada.
-Vão te perguntar se estamos namorando.
-Aí você diz.
Analisando essa hipótese, lembrei-me de ter percebido um certo interesse, em saber da Luna, vindo da minha.
Perguntou várias coisas, há uns dias atrás.
Algumas semanas depois, estava em meu quarto, olhando meus e-mails no celular era umas 18:15 da tarde.
Minha mãe veio entregar uns lençóis que havia lavado.
-Assume. Você ta envolvido com aquela garota.
Respirei fundo. minha boca secou
-A Luna!? A Luna é minha amiga.
-Sei! Amiga! Disse ela, em tom de ironia.
Me levantei, fechei a porta. Ela me observava. Com olhar de sarcasmo.
-Mãe. Eu não gosto de meninas.
Ela me olhou com cara de quem não intendeu. Fingindo não saber do que eu falava.
-Eu nunca gostei. Eu queria falar mais eu tenho medo. Eu tenho dúvida
-Você gosta do que então? Ela alterou o tom. bem séria, e brava
Levantei a cabeça. Quase que sem paciência.
-Mãe se eu não gosto de menina. É de meninos que eu gosto.
-Eu sou gay!
Ela começou a respirar ofegante. Me deu um belo tapa na cara.
Colocou as mãos na testa
-Cala a boca. Você não me repete isso. Seu...
-Seu sujo. Seu pai...
-Eu vou falar pra ele. Você me aguarde.
Ela saiu do quarto. Fechei a porta. Fiquei dentro do quarto um tempo. Apavorado. Ouvi bater na porta.
Era meu pai me chamando pra jantar. Foi o jantar mais apreensivo de todos em minha vida.
Minha mãe mal falava. Até mesmo com meu pai Ele perguntou duas vezes o que ela tinha.
Ela respirava fundo e dizia:-Nada. Depois conversamos.
Depois do jantar os dois deitaram no sofá, como sempre faziam. Pra assistir novela. Meu pai como sempre dormiu.
Quando a novela acabou, minha mãe levantou. Foi no banheiro (que ficava em frente ao meu quarto). Ouvi a descarga,
e a pia, com a torneira aberta. Ela saiu do banheiro e foi pro quarto dela. Acendeu a luz e chamou meu pai.
Ouvi ele sentando em cima da cama, provavelmente a pedido dela. Eles cochichavam. Ficaram por muito tempo.
-O QUÊ??? Ouvi meu pai dizer. Bem alterado.
Eles começaram a discutir. Ouvi ele caminhando no corredor.
Passou na porta do meu quarto, me encarando com um olhar ameaçador. E foi pro banheiro.Saiu do banheiro e voltou pro quarto. Eles continuavam a discutir.
Ele veio até meu quarto, bem alterado.
-Que conversa é essa?? Que a sua mãe ta falando??
Olhei pra ele. Ele estava com as sobrancelhas enrugadas. E vermelho.
-Eu só me abri com ela. Disse o que estava acontecendo. Minha mãe apareceu na porta. Chorando, confusa.
-Eu sempre fui "assim". Só disse agora.
-Ah seu moleque filho da mãe.
-Você enganou a gente o tempo inteiro. Seus próprios pais.
-Canalha!
Eu estava tão assustado, que não conseguia decidir se eu estava fingindo que aquilo não estava acontecendo, ou se
aquilo realmente era só um pesadelo. E, eu sei, que eles sabiam. Sempre souberam. Por isso não ficaram espantados com a notícia. Sabiam que um dia a bomba ia estourar. E tudo que sentiam era ódio.
Pois naquele momento, na cabeça deles, eu acabava com a família perfeitamente correta que eles construíram.
Eu não sei como mais eu sabia que, tudo que eles sentiam era o medo e a vergonha de caminhar pela calçada do bairro,
ouvindo os comentários, e a sentença que sempre iriam carregar."-Aqueles são o Sr. Inácio e a dona Ana. Eles tem um
filho gay." Isso nunca iam mudar.
Ele me deu um tapa na cara. Bem forte. Levou todo meu corpo pro chão.
E foi pra cozinha. Ouvi ele pagando água.
Minha mãe foi atrás. Começaram a cochichar de novo. Ouvia minha mãe falando e chorando ao mesmo tempo.
Ele veio até a porta do quarto. E me olhou
-Você!! Apontando o dedo pra mim. E franzindo os dentes.
-Você vai se arrepender.
Entrou no quarto deles, trocou de roupa. E se deitou.
Minha mãe ficou sentada umas duas horas na cadeira da mesa, da cozinha.
E depois foi se deitar também.
Pronto eu havia me assumido. Ouvindo assim, parece ter sido a coisa mais simples. Mais não. Agora,
cabia a mim esperar o que iria acontecer comigo. E com certeza, cedo ou tarde, mudanças iriam acontecer.
Os próximos dias foram os mais silenciosos daquela casa. Ninguém falava com ninguém.
Eles cochichavam na hora de dormir. Certa noite ouvi minha mãe segurando:-Vai passar!
Dado exatamente duas semanas, minha mãe voltou a falar comigo.
Pediu roupa suja, pra lavar. Ela não me encarava. E sua expressão era de quem ainda estava muito chateada.
Conversávamos apenas o necessário.
Meu pai, nada! Ele se manteve firme.
Os dias foram se passando, minha mãe e eu conseguimos recuperar 50% da nossa antiga relação. Eu me sentia bem com isso.
Havia acabado aquela sensação de estar escondendo algo que ela precisava saber. E eu comecei um curso de cabeleireiro.
Fiz muitos amigos. Eles frequentavam minha casa, quando meu pai não estava. Minha mãe era até educada com eles. E pra mim,
o pior havia passado. Eu era um jovem gay assumido.
Certa tarde, meu pai chegava da padaria, transtornado.
-Então quer dizer que ele ta trazendo gente pra cá? Perguntou pra minha mãe.
-Quem disse isso?
-Eu fiquei sabendo. Ele respondeu.
-Ah, ele trás uns amigos aí,da escola, talvez.
-Talvez, Ana!! Ele disse, gesticulando.
-Essa gente anda tudo junto, eu não quero saber disso aqui. Essa casa é minha. Daqui uns dias tem travesti se prostituindo aqui, já imaginou?
-Eu não sei, não vejo quem são, parecem ser gente boa!
Ele chamou ela até o quarto. conversaram um pouco. Ela começou a chorar. Passado uns vinte minutos,
ela veio até mim. Ficou parada na minha frente, chorando, e me entregou um bolo de dinheiro na mão.
Tinha R$400,00.
-Seu pai mandou te dar. É pra você ir embora daqui.
-Ele disse que até o mês que vem, não quer mais ver você aqui.
-Pra onde eu vou? Perguntei, engasgando com o choro.
-Ele disse que agora que você tem amigos não vai ficar desamparado. Disse também que esse dinheiro
vai ajudar até você arrumar emprego.
Automaticamente, se faz em meu rosto uma expressão de piedade e desespero.
-Mais mãe, eu não tenho pra onde ir.
-Filho, eu não posso fazer nada. Você conhece seu pai.
-Posso falar com sua tia, se você quiser.
Demorou quatro dias. Mais consegui uma casa. Moravam dois rapazes, jovens amigos. Todos gays.
Eram cabeleireiros. Faziam curso comigo.
No dia da minha partida, demorei oito horas pra juntar minhas coisas, fazer as malas.
Minha mãe me encheu de perguntas. E não saia de perto de mim.
Quando tudo ja estava no táxi, voltei pra pegar a última mala. E minha mãe veio até mim. Me abraçou.
-Meu filho. Ela segurou meus braços e me olhou.
-Você saiu de mim. Eu fiz você.
-Me perdoa, mais eu não posso aceitar.
Beijei as mãos dela, e o táxi buzinou. Meu pai não estava em casa.
No decorrer dos anos, aconteceu de tudo. Um dos rapazes com quem fui morar, deixou o emprego em um salão e
me indicou pra ser contratado no lugar dele. Ele arrumara um melhor.
Mais a gente brigou por causa de um secador. Todos os três.
Fui morar com outros amigos que fiz durante esse tempo. Eram tatuadores.
Muito legais. Um casal de amigos. A garota era lésbica.... CONTINUA....
sábado, 28 de maio de 2016
sexta-feira, 20 de maio de 2016
O garoto dos olhos esbugalhados
Primeiro dia de faculdade. Frio na barriga. Já tinha
passado tudo aquilo antes, mas sempre sentimos essas sensações toda vez.
Ele chegou gritando, na sala. Foi um auê por conta da tal
camiseta, e como eu tinha entrado no curso bem depois, perdi o que tinha
acontecido. Ele era alto, muito magro, olhos esbugalhados, sempre escondendo o
que estava pensando. Muito enfático em suas opiniões, detestava receber críticas,
e defendia suas opiniões como uma leoa defende os filhotes. Ficava tentando
adivinhar o signo dele, isso era de extrema importância para mim. Aries, Leão,
Virgem ou Aquário. Independente de qual ele fosse, todos esses, exceto Virgem
eram meus infernos astrais. Foi bom enquanto durou, mas por outro lado o
ascendente, deveria estar falando mais alto. Retomada de esperanças.
Eu sempre passei uma imagem grotesca do garoto barbudo,
que não falava com ninguém, pintava as unhas de preto e se fechava em seu
mundo. Anti social, que queria fazer os trabalhos, que eram em grupo, sozinho,
mas era uma imagem errada que todos tinham de mim, inclusive ele. As vezes por
isso nunca falou comigo. Por medo dessa imagem que eu passava as vezes
inconscientemente.
Com todos aqueles defeitos que ele tinha, muito
escandaloso, discutia com a professora em sala de aula, fazia perguntas bestas,
comecei a pegar antipatia por ele. Meu irmão, que não perde a piada disse que
isso era amor reprimido, mas a cada dia que passava eu pegava cada vez mais
antipatia por ele.
Na aula de Teoria da Comunicação, que era uma das minhas
matérias preferidas, ele debateu com a professora, insinuando que; ela não
sabia dar aulas. Aquilo me fervilhou o sangue, minha vontade era de mandar ele
calar a boca.
Na aula de Publicidade, ele simplesmente saiu da sala,
quando o professor perguntou num tom meio debochado se ele estava bem. Tudo bem
o professor foi errado em entonar sua voz daquela maneira, mas isso era típico dele,
já deveríamos todos estar acostumados com suas gracinhas. Foi a gota d’agua.
Que garoto mal-educado, sair da sala daquela maneira. Onde já se viu isso!
Pois bem, nós em nossa vida, devemos sempre ver o outro
lado da história. Ver só não, ouvir e ter o mínimo de empatia possível. Num belíssimo
dia fatídico, já enturmado com a turma do fundo do ônibus (Fizemos até um grupo
no Facebook intitulado “Fundão do busão”), fiquei sabendo que o garoto em
questão tinha perdido o pai recentemente. Uma onda de arrependimento, tristeza
e empatia tomou conta de mim. Que remorso. Que monstro eu sou.
Aquilo me deixou completamente acabado, eu não tinha o
direito de julgar as atitudes dele, por mais que eu não concordasse com elas.
Uma vez ouvi que; precisamos sempre jogar palavras doces
ao vento ou a uma pessoa, pois um dia pode ser que; tenhamos que engolir essas
palavras. Eu engoli todas as atrocidades que tinha dito sobre ele, da pior maneira
possível. Foram amarguras com um gosto terrível.
No seminário de publicidade, eu dei um show. O professor
me chamou de artista, e vindo dele não sei se foi um insulto ou um elogio, mas
ainda prefiro acreditar que foi um elogio, pois salvei a apresentação, de um de
nossos integrantes que quase começou a pregar o evangelho no meio do seminário,
só porque eu usei um exemplo de publicidade religiosa. Ele começou a falar
sobre pregação divina, e eu na hora vi a expressão de desgosto do professor. “Preciso
consertar essa cagada”. E consertei. Comecei a falar mais sobre o tema de uma
forma mais concisa e adaptável, já que o tal integrante, não fez nada mais do
que ler um papel, e ainda sim ficar perdido em todas as falas. Trabalhos em grupo,
me fazem perceber porque o Batman, trabalha sozinho.
Enfim, o garoto dos olhos esbugalhados, me fez uma
pergunta. Isso mesmo, olhando diretamente para mim, com aquele olhar que me
deixava cada vez mais sem graça. Não para nenhum outro integrante, mas para
mim. Respondi normalmente, e ali; vi que estávamos ambos começando a nos
entender, e desconstruir toda a imagem errada que tínhamos um do outro. Isso foi
só o começo.
Na sexta-feira, prova de IPT. Era só fazer a prova e ir
embora. Foi um dia totalmente atípico, pois todo mundo se reuniu antes, até os
grupinhos que tinham rixas com outros. Não só eu e ele, mas toda a pequena
turma de publicidade começamos a nos entender. Ainda tinha o Marcos que era
pior do que eu. Barba lenhador, cara fechada, mas um doce de pessoa! Se dava
bem com todo mundo inclusive comigo, já que Marcos fazia parte da turma do
fundão do busão. Marcos chegou e me cumprimentou, e em seguida veio o garoto
dos olhos esbugalhados, que tinha uma afinidade maior com Marcos. Marcos o cumprimentou
também e com um gesto lindo de puro respeito o abraçou e beijou no rosto. O
menino dos olhos esbugalhados disse:
-Ohhh, com direito a beijinho!
Eu fiquei sem graça de não cumprimenta-lo. Estendi a mão
para ele, e apertei forte. Nisso ele me puxou para dar um beijo no seu rosto.
Foi tudo meio confuso, minha boca foi parar no pescoço dele, e vice-versa,
ainda bem que tinha tomado um banho de perfume, que vi que ele sentiu na hora.
Fiquei meio sem jeito, meio atrapalhado naquela confusão, mas ciente de que
isso já era um bom começo. Naquela hora toda a imagem de um garoto mimado,
enfático demais, chamativo, e rebelde, caiu por terra. Ele tinha seus motivos
para ser assim, assim como eu tinha meus motivos para ser chato demais. Cada uma
sabe onde a correia aperta.
Foi um dia produtivo, não o vi mais, porque acabei a
prova mais cedo do que ele, mas agora é esperar na segunda feira se haverá mais
um progresso, nessa difícil missão que é; aceitar nossas diferenças. Missão da
qual, estou adorando!
segunda-feira, 16 de maio de 2016
O massacre do abraço elétrico parte II
Bem, após o ocorrido minha intuição continuava a me dar sinais de que aquela situação iria se arrastar para o abismo, mas a gente só acredita apanhando. E apanhei. Levei uma surra de sentimentos mal correspondidos. Na semana seguinte, após eu ter voltado pra minha cidade, e para minha rotina, ele continuar a me tratar super bem... Quando ele queria. Me deixava esperando mensagens dele, as vezes via mas não respondia, acho que de propósito. Pois bem, aquilo estava me matando aos poucos por dentro. Ele não sabia o que queria de mim. Simplesmente estava me deixando na reserva, procurando alguém mais interessante, e caso não achasse voltaria pra mim. E ele achou. Só não teve coragem de me dizer que achou, mas minha intuição, e o fato de ser quase dez anos mais velho que ele, me dizia isso. Sem perceber disso tudo o que eu sentia pra ele. Falei tudo, despejei todos os meus sentimentos que por ele, foram pisoteados e esmagados como se faz com a bituca do cigarro. Aliás; que ótima analogia. Eu não consigo me contentar com pouco, sou de amores intensos, ou eu sinto ou eu não sinto, não sei ficar jogando jogos de espera. Não sei fazer ninguém vir atrás de mim. Va lá com essa canalhice que chamam de gelo. "Esnoba que ele vem, ignora que ele vem...". Isso não funciona pra mim, gosto de expor meus sentimentos, fazer a pessoa saber de tudo o que sinto por ela. Mas isso no mundo de hoje afasta as pessoas. Assusta. Ninguém mais sente fortes paixões, emoções não vibram mais, e sentimentos perderam completamente a valia. Após eu me expor pra ele, de uma maneira tão suntuosa, tão elegante, tão vibrante, de forma que eu; achava que ninguém, ninguém pudesse dizer não. Mas ele disse. Por alguns dias ainda quis me dar alguma esperança, mas na fatídica segunda-feira 17, ele me disse. Me deixou de escanteio. Me deu um fora, bonito com direito a frases clichês e mentirosas como se faz hoje em dia. Era tanta canalhice da parte dele, que saíram as melhores perolas do fora digno: "O problema não sou você, sou eu", "Você merece alguém melhor" e é claro não poderia deixar de faltar a mais humilhante de todas: "Ainda podemos ser amigos". Querido, eu tenho Facebook é pra isso, acha mesmo que fui da minha cidade pra sua, passar aquela humilhação pra ter sua amizade? Me poupe, se poupe, nos poupe. Na hora que levei o fora, estava na aula de projeto gráfico, aula que odiava pra piorar ainda mais a situação, se pelo menos fosse teoria da comunicação eu ainda me entretia e ocupava a minha cabeça com algo produtivo. Cheguei em casa, e comecei a pensar. Nunca iria dar certo. Eu sou demais pra ele. Ele não sabe nem escrever direito. Lembro um dia que meu Whatsapp estava atualizando e minha foto some quando isso acontece. Ele mandou a seguinte mensagem:
"Não gostei de vc ter mi bloquiado". Meu Deus, que dialeto é esse? Que porra é essa que esse garoto tá falando?
Não, não poderia dar certo. Eu adoro conversar, chegar dizendo e "E ai como foi seu dia?" "Escuta aqui essa música ouvi e me lembrei de você". "Olha esse chocolate que você gosta vi e comprei pra você". Ele não tinha assunto comigo, e quando tinha eram os mais furados, bestas e sem sentidos do mundo, nem de música ele sabia conversar, e olha que temos o mesmo gosto hein? Mas não, do que iriamos conversar? De que foi na boate? De quem pegou quem? De quantos ele beijou na minhas costas? Porque disso ele sabia bem! O país passando por um processo histórico, e ele totalmente averso a tudo! Como uma pessoa pode ser tão sem opinião assim?! Com quem eu iria discutir Adorno? Com quem eu iria discutir Horkeimer? Com quem eu iria discutir políticas públicas comunicacionais? Chico Buarque, livros do Dan Brown, filmes do Von Trier? Com ninguém, porque ele não sabia e nem fazia questão de saber de nada disso? Era demais pra ele, assim como eu. Sim, foi isso que me confortou. Eu era demais pra ele, intelectualmente e sentimentalmente. Meus sentimentos, tão puros, tão preciosos que ele nunca iria saber o que fazer com toda aquela riqueza. Ele estava acostumado a bijuterias, aço inox, latão, e não meus sentimentos engoldados, brilhantes, chapiscantes como o clipe Firework da Katy Perry, e valiosos demais pra estar em mãos vazias. Ele não poderia me dar nada em troca mesmo, a não ser suas pulseiras da área vip. Professor, independente, criativo, inteligente, apaixonado, sonhador, bravo, em plena segunda graduação superior, que odeia injustiças, esse era eu, mas e ele? Quem ou o que ele era? Títulos honoríficos são pra mim muita coisa, porém não define caráter, mas ele, não tinha nem uma coisa nem outra. Era vazio, seco, oco. Uma capa bonita, numa área semi-árida, sem vida. E assim eu vou colecionando mais uma decepção. Eu disse que odeio injustiças, mas sou injusto comigo mesmo, porque as pessoas só fazem isso porque eu permito. Por outro lado, não acho que é crime sentir, ou querer sentir. Não tive culpa de nascer assim, sempre esperando o melhor dos outros, acreditando nas pessoas, em pleno mundo onde vigora o egoísmo gratuito. Eu era demais pra ele, e ponto final. Pelo menos por hoje, os diazepínicos me farão dormir, mesmo tendo que levantar cedo não estou com um pingo de sono. Foi duro sentir esse gosto amargo da ingratidão, mais uma vez. Mas assim espero ter aprendido mais uma
lição no complexo capitulo do que é ter amor próprio.
"Não gostei de vc ter mi bloquiado". Meu Deus, que dialeto é esse? Que porra é essa que esse garoto tá falando?
Não, não poderia dar certo. Eu adoro conversar, chegar dizendo e "E ai como foi seu dia?" "Escuta aqui essa música ouvi e me lembrei de você". "Olha esse chocolate que você gosta vi e comprei pra você". Ele não tinha assunto comigo, e quando tinha eram os mais furados, bestas e sem sentidos do mundo, nem de música ele sabia conversar, e olha que temos o mesmo gosto hein? Mas não, do que iriamos conversar? De que foi na boate? De quem pegou quem? De quantos ele beijou na minhas costas? Porque disso ele sabia bem! O país passando por um processo histórico, e ele totalmente averso a tudo! Como uma pessoa pode ser tão sem opinião assim?! Com quem eu iria discutir Adorno? Com quem eu iria discutir Horkeimer? Com quem eu iria discutir políticas públicas comunicacionais? Chico Buarque, livros do Dan Brown, filmes do Von Trier? Com ninguém, porque ele não sabia e nem fazia questão de saber de nada disso? Era demais pra ele, assim como eu. Sim, foi isso que me confortou. Eu era demais pra ele, intelectualmente e sentimentalmente. Meus sentimentos, tão puros, tão preciosos que ele nunca iria saber o que fazer com toda aquela riqueza. Ele estava acostumado a bijuterias, aço inox, latão, e não meus sentimentos engoldados, brilhantes, chapiscantes como o clipe Firework da Katy Perry, e valiosos demais pra estar em mãos vazias. Ele não poderia me dar nada em troca mesmo, a não ser suas pulseiras da área vip. Professor, independente, criativo, inteligente, apaixonado, sonhador, bravo, em plena segunda graduação superior, que odeia injustiças, esse era eu, mas e ele? Quem ou o que ele era? Títulos honoríficos são pra mim muita coisa, porém não define caráter, mas ele, não tinha nem uma coisa nem outra. Era vazio, seco, oco. Uma capa bonita, numa área semi-árida, sem vida. E assim eu vou colecionando mais uma decepção. Eu disse que odeio injustiças, mas sou injusto comigo mesmo, porque as pessoas só fazem isso porque eu permito. Por outro lado, não acho que é crime sentir, ou querer sentir. Não tive culpa de nascer assim, sempre esperando o melhor dos outros, acreditando nas pessoas, em pleno mundo onde vigora o egoísmo gratuito. Eu era demais pra ele, e ponto final. Pelo menos por hoje, os diazepínicos me farão dormir, mesmo tendo que levantar cedo não estou com um pingo de sono. Foi duro sentir esse gosto amargo da ingratidão, mais uma vez. Mas assim espero ter aprendido mais uma
lição no complexo capitulo do que é ter amor próprio.
sexta-feira, 13 de maio de 2016
A Presa
Estava há algum
tempo desempregado, desesperado por serviço. Acabei arrumando num lugar que não
gostava, para fazer o que também não gostava. No primeiro dia, fiquei
apreensivo, como é de costume nos empregos. Até de usar o banheiro eu fico com
vergonha. Meu olhar é como uma peneira, mas isso eu faço inconscientemente.
Primeiro eu avalio todas as pessoas do local. É claro que ninguém arruma um
emprego para namorar, ficar ou coisa assim, mas isso são jogadas sujas do inconsciente.
Depois de avaliar o ambiente, seleciono aqueles que mais me agradaram. Os quesitos
chaves para a aprovação são: Simpatia, educação e humildade. O lado bom de ser
pisciano (Se é que pisciano tem lado bom de ser) é que num olhar, conseguimos
identificar todos esses pontos. A pessoa antipática, metida e prepotente, não
olha nos olhos, e quando olha faz com desprezo, de rabo de olho, desconfiada,
pronta para fazer você pensar que é menos que ela. Selecionei três. Dois loiros
e um moreno. Um dos loiros exclui por falta de empatia, o moreno virou melhor
amigo e o outro loiro foi o selecionado. Essa visão meio egocêntrica e as vezes
mesquinha faz parecer que estamos num restaurante onde você olha o cardápio e
escolhe aquilo que mais lhe agrada por simples gosto pessoal. De novo o inconsciente
jogando sujo conosco. Mas escolhi o loiro pelo olhar. O olhar. Ah o olhar. Se
tem uma coisa que amo mais que abraço é o olhar. Ele me olhava com simpatia,
com um “que” de bondade, simplicidade e as vezes até malicia. Era diferente dos
outros olhares. É fácil saber qual tipo de olhar a pessoa tem. Um olhar de
curiosidade era o que mais tinha. Mas o dele não, ia muito além disso. Olhava para
mim como se quisesse puxar assunto, falar alguma coisa, mas minha cara de
bravo, chato e metido não permitia tal aproximação. Mas no fundo eu e ele sabíamos
que na hora certa, no lugar certo pelo menos um “oi” iria acontecer. O destino
é algo impressionante. A amiga dele foi trocada de setor, e teve que vir sentar
bem do meu lado. Era uma pessoa extremamente simpática e educada, e de quando
em quando, longe do olhar da supervisora batíamos um papo agradável. Ele passou
pelo corredor e cumprimentou ela. Ela disse alguma coisa que não entendi bem,
mas ele retribui com um sorriso, justo quando eu olhei, como se eu fizesse
parte daquela retribuição. Fingi que não era comigo e voltei ao trabalho.
Sempre que cruzava com ele, propositalmente ele lançava o mesmo olhar. As vezes
de simpatia, as vezes de elegância, as vezes de querer puxar assunto. Mas eu
tenho a insegurança aflorada demais, para sorrir para ele, ou dizer um oi. Se
tem uma coisa que me deixa a base de Rivotril é o desprezo das pessoas, odeio
ser ignorado e desagradável. Mas fico pensando se; ele tem o mesmo pensamento
que o meu. E se ele estiver pensando em esperar eu chegar nele? Se ele estiver pensando
em eu dar um sorrido maior ou dizer um “oi”. Ele pode estar com a resposta na
ponta da língua, e ele poderá até ser o que eu esperava. Mas e se não for? E se
eu tiver que conviver diariamente com ele e seu desprezo, representado pelos
encontros informais da hora do almoço pelos corredores? E se eu estiver sendo autoconfiante
demais? Jamais poderei conviver com outro olhar dele. Jamais poderei conviver
com o olhar de “Eu te desprezei”. Não.
Pode
ser que eu esteja fantasiando demais as coisas. Um olhar, não significa nada, e
tudo ao mesmo tempo. É um fato corriqueiro do cotidiano. Recebemos e enviamos
mais de 50 mil olhares por dia nas coisas e pessoas. Mas é que eu, adoro sofrer
por antecipação, além de parcelar o sofrimento restante em 12 vezes com juros. Pode
não significar nada. Pode significar apenas um “Nossa que cara estranho” ou um “Nossa
que cara legal” ou até um “Que cara estupido”. Mas de qualquer forma, eu adoro
me perder nos olhares dele. É muito fascinante o mistério do desconhecido. Se
ele não for tão tímido e a amiga dele ser o elo que faltava para uma
aproximação maior, prefiro continuar sem saber qual interesse dele comigo.
Abrir possibilidades para minha mente trabalhar em cenários diferentes é muito
importante pra mim. E assim eu vou indo olhando e recebendo olhares. Os dele de
preferência.
Meu amigo garoto de programa
Éramos Garotos de programa, Pedro e eu.
Como exige a profissão, bem-dotados de tudo. Lindos, jovens,
homens. Arrancávamos suspiros.
No privê, o qual fomos expulsos por brigar, conheci Pedro. Imediatamente
começou em mim. Do mesmo jeito que sempre começa.
Conversamos pouco, achava estranho, mais fui vendo que era
porque ele se sentia de certa forma desconfortável perto de mim.
Ele ficava sem jeito, olhava para ele bem direto, enquanto falávamos.
Ele entendia o recado e ria, tímido, fingindo que não entendeu.
A gente revezava o privê com a "galera de rua".
Duas vezes por semana atendíamos na rua. Clientes, a maioria deles coroa.
Ficávamos em uma roda, na rua. Quando um dia surgiu um
assunto de que Pedro já ia para a rua sem cueca, quando ele chegou; perguntaram
se eu duvidava
Eu disse que sim. Aí ele me mostrou. E realmente, estava sem
cueca. Foi a minha chance. Ele sacou na hora que eu gostei do que tinha visto.
Ele passou a me provocar, até que ficamos a sós. Foi
automático. Ele queria tanto quanto eu. Mais ambos conscientes que até então,
não iriamos abrir mão de
Nossas "profissões". Mais o tempo foi passando e
eu sem saber por que, passei a ignorar isso. E Pedro parecia gostar também.
Adorava me perder nele,
Olhando ele. Observando, seu rosto, enquanto ele falava com
alguém. Ele perguntava se eu era louco de fazer aquilo. Pois não queríamos que
soubessem.
Era nosso segredo. Bom mesmo era quando surgiam os comentários
dos programas. Era cada história. Disfarçávamos
-Seria melhor, com você. Pedro sempre brigava comigo, quando
tocava no assunto de sairmos daquela vida e ficar juntos, um com o outro,
somente.
Ele falava que a vida fácil era como um jogo. E e que tinha
muitos prêmios. Os quais não poderíamos, se juntos.
Ele gostava daquilo. E eu o queria. Até o dia que, ele me
pediu para esperar no lugar que sempre ficávamos. Uma praça deserta perto do
centro
Da cidade muito grande, abandonada e com muitas árvores.
Fazia frio. Me virei e o vi. D E S L U M B R A N T E, como sempre. Sentou do
meu lado e me olhou.
"Você não perde essa mania..." Resmungou sorrindo
e olhando pra baixo. Com os dedos entrelaçados, no meio das pernas, abertas.
Conversamos e rimos muito. E nos perdemos muito, um no
outro.
Aí ele disse: -Vou pra Espanha. Suave e ao mesmo tempo
assustado. Esperando minha reação.
Fiquei olhando para o lado um tempo. Sem pensar em nada.
Apenas acompanhando o coração começando a acelerar.
E tentando acreditar que aquilo não estava acontecendo.
Torcendo para ser um delírio. Me fiz calmo. Quando decidi responde-lo, a
respiração
Acelerou também. Senti meu nariz arder. E a gota de uma
lágrima escorregar até na boca. E como é salgada, essa maldita.
-Que belo prêmio, parabéns.
Foi tudo que eu disse. Senti meu ectoplasma levantar e
encher a cara dele de porrada, chamando-o de egoísta, e tudo mais que ele era.
Mais o corpo não acompanhou.
A mente pesou. Junto com a dor de saber que não adiantaria
eu fazer nada. E ele falava as mesmas ladainhas de sempre.
Disse para ele que tudo bem. A final ele nunca tinha me
prometido nada mesmo. Ele se levantou, me puxou para um abraço. E ficamos
parados ali.
Querendo pedir desculpas por tudo. E tentando agir como dois
velhos amigos. E ele foi. Mantínhamos contato. Mas ele foi roubado em um prive
espanhol.
E perdeu seus contatos pessoais. Depois de um tempo que ele
se foi, deixei a prostituição, pois terminara meu curso técnico em
administração. Nunca mais me
Interessei por ninguém. E vivo na esperança de que ele
volte, para mim. Vivendo de exageros. Éramos Garotos de programa, Pedro e eu.
Como exige a profissão, bem-dotados de tudo. Lindos, jovens,
homens. Arrancávamos suspiros.
No privê, o qual fomos expulsos por brigar, conheci Pedro. Imediatamente
começou em mim. Do mesmo jeito que sempre começa.
Conversamos pouco, achava estranho, mais fui vendo que era
porque ele se sentia de certa forma desconfortável perto de mim.
Ele ficava sem jeito, olhava para ele bem direto, enquanto falávamos.
Ele entendia o recado e ria, tímido, fingindo que não entendeu.
A gente revezava o privê com a "galera de rua".
Duas vezes por semana atendíamos na rua. Clientes, a maioria deles coroa.
Ficávamos em uma roda, na rua. Quando um dia surgiu um
assunto de que Pedro já ia para a rua sem cueca, quando ele chegou; perguntaram
se eu duvidava
Eu disse que sim. Aí ele me mostrou. E realmente, estava sem
cueca. Foi a minha chance. Ele sacou na hora que eu gostei do que tinha visto.
Ele passou a me provocar, até que ficamos a sós. Foi
automático. Ele queria tanto quanto eu. Mais ambos conscientes que até então,
não iriamos abrir mão de
Nossas "profissões". Mais o tempo foi passando e
eu sem saber por que, passei a ignorar isso. E Pedro parecia gostar também.
Adorava me perder nele,
Olhando ele. Observando, seu rosto, enquanto ele falava com
alguém. Ele perguntava se eu era louco de fazer aquilo. Pois não queríamos que
soubessem.
Era nosso segredo. Bom mesmo era quando surgiam os comentários
dos programas. Era cada história. Disfarçavamos e riamos. Sempre com o olho
colado, querendo dizer,
-Seria melhor, com você. Pedro sempre brigava comigo, quando
tocava no assunto de sairmos daquela vida e ficar juntos, um com o outro,
somente.
Ele falava que a vida fácil era como um jogo. E e que tinha
muitos prêmios. Os quais não poderíamos, se juntos.
Ele gostava daquilo. E eu o queria. Até o dia que, ele me
pediu para esperar no lugar que sempre ficávamos. Uma praça deserta perto do
centro
Da cidade muito grande, abandonada e com muitas árvores.
Fazia frio. Me virei e o vi. D E S L U M B R A N T E, como sempre. Sentou do
meu lado e me olhou.
"Você não perde essa mania..." Resmungou sorrindo
e olhando pra baixo. Com os dedos entrelaçados, no meio das pernas, abertas.
Conversamos e rimos muito. E nos perdemos muito, um no
outro.
Aí ele disse: -Vou pra Espanha. Suave e ao mesmo tempo
assustado. Esperando minha reação.
Fiquei olhando para o lado um tempo. Sem pensar em nada.
Apenas acompanhando o coração começando a acelerar.
E tentando acreditar que aquilo não estava acontecendo.
Torcendo para ser um delírio. Me fiz calmo. Quando decidi responde-lo, a
respiração
Acelerou também. Senti meu nariz arder. E a gota de uma
lágrima escorregar até na boca. E como é salgada, essa maldita.
-Que belo prêmio, parabéns.
Foi tudo que eu disse. Senti meu ectoplasma levantar e
encher a cara dele de porrada, chamando-o de egoísta, e tudo mais que ele era.
Mais o corpo não acompanhou.
A mente pesou. Junto com a dor de saber que não adiantaria
eu fazer nada. E ele falava as mesmas ladainhas de sempre.
Disse para ele que tudo bem. A final ele nunca tinha me
prometido nada mesmo. Ele se levantou, me puxou para um abraço. E ficamos
parados ali.
Querendo pedir desculpas por tudo. E tentando agir como dois
velhos amigos. E ele foi. Mantínhamos contato. Mas ele foi roubado em um prive
espanhol.
E perdeu seus contatos pessoais. Depois de um tempo que ele
se foi, deixei a prostituição, pois terminara meu curso técnico em
administração. Nunca mais me
Interessei por ninguém. E vivo na esperança de que ele
volte, para mim. Vivendo de exageros.
terça-feira, 10 de maio de 2016
Exame Demissional
Eu cheguei, na clínica. Era por volta das 13:30. Todo
mundo sabe que essas coisas demoram, uma eternidade. A empresa em que eu
trabalhava, havia falido, então mandaram todo mundo embora antes. Aquela
clinica me dava a sensação de ter a visto antes. Pedi informações no balcão a
secretária mal-humorada Natalia. Com uma educação ríspida, gentilmente pediu
para que eu sentasse e esperasse (Do tipo Xuxa, aham Claudia senta lá). Olhei
para o garoto sentado que olhava minha tatuagem do gato de Chésur na perna. Ele
era bonito, tinha um rosto cheio, corpo definido, cabelos negros e olhar
penetrante. Estava de bermuda e tinha muitíssimos pelos na perna. Ainda no
caminho até a clínica, decidi parar de me entediar, e comecei a jogar Candy
Crush. Quem já jogou, sabe que a fase da gelatina é triste, e nela que eu me
lasquei todo. Por uma balinha azul, quase não passo de fase. Me sentei e
resolvi esperar a boa vontade da médica me atender. Do meu lado um homem de uns
trinta anos, e do lado dele Lucas. Esse era seu nome, que fiquei sabendo por
conta de uma amiga dele, que estava atrás de mim na fila, e quando o viu gritou
seu nome. Ele se levantou, e ficou conversando com ela na porta até Natalia
gentilmente mandar eles se sentarem. De vez em quando eu o olhava e ele me olhava
também, mas continuava firme no jogo, maldito pirulito, que acabou na última
jogada. A médica o chamou, e ele entrou. Subiu as escadas ainda olhando de rabo
de olha pra mim. Eu continuei firme no jogo, e dessa vez estava disposto a
passar de fase de uma vez por todas, continuei firme, concentrado. Passou-se
uma meia hora e eu ainda não havia conseguido passar de fase. Lucas desceu as
escadas, e passou por mim, ele hesitou quando passou bem na minha frente, meu
campo de visão acusou isso, mas eu não queria demonstrar interesse por ele, eu
queria mesmo era detonar a Jelly bean que estava travando minha fase. No fundo
eu queria que ele viesse até mim, e pedisse meu telefone, pois eu jamais iria
fazer isso. Acho que ele também não queria me atrapalhar, eu pude ver até sua
mão se hesitar em me encostar, ela foi e parou no meio do caminho. Ele caminhou
até a porta e saiu, mas vi que ele olhou pra trás, eu olhei bem nos olhos dele,
e ele piscou pra mim. Depois fiquei pensando, eu poderia ter chamado ele, e pedido
seu número, poderíamos ter marcado um encontro no cinema e durante o filme eu o
beijaria. Depois marcaríamos outro encontro e assim começaríamos a namorar.
Depois casaríamos e teríamos uma bela vida feliz, entre brigas discussões, mas
ainda teria alguém para chamar de meu, tudo isso só não foi possível por causa
de uma maldita Jelly Bean.
O Massacre do abraço elétrico
Peguei
o ônibus eram umas 11:00. Meia hora de atraso. Murmurinhos e rumores de que; a
empresa de ônibus estava falindo, por isso não era raro que se atrasassem
assim.
Não
era tão confortável quanto os ônibus de viagens que estava acostumado a andar,
mas se tivesse que fazer baldeação os outros, eram piores e ficava mais caro,
por isso optei por esse mesmo. Apertei o play na playlist de caminhada e
aleatoriamente tocava Epica, Nightwish, Lacuna Coil, Sirenia, e até Theatre Of
Tragedy. Passou por outras duas minicidades antes do destino final. No destino
final, fiquei com muito medo. A cidade era um típico cenário de filme de terror
americano. Milharais, cidade muito pequena, habitantes em sua maioria idosos, e
para piorar, a cidade tinha um frigorífico de abate. Gelei quando vi a
rodoviária, nem guichê para comprar a passagem de volta tinha, eu teria que
comprar dentro do ônibus mesmo. Desci do ônibus e mandei um SMS dizendo “já
cheguei”, simplesmente isso. Não tinha nada de apelações românticas ou
coraçõezinhos, absolutamente nada, apenas um simples e seco “já cheguei”.
Esperei algum tempo até que ele chegou. Mais alto do que eu imaginava, rosto
firme, postura robusta. O jeito dele, carinhoso, preocupado, romântico, além de
suas tatuagens e alargadores haviam me conquistado de primeira. Sua barba
crespa dava um ar de mais velho, mas tinha apenas 20 anos. Esse era o problema.
Depois que você passa dos 23 os anos passam mais rápido, e fazem sim muita
diferença. Dos 20 que ele tinha para meus 26 significaram uma eternidade, de
diferenças. Aquilo era muito estranho, muito mesmo. O quarto ele era
apaixonante. Posters espalhados por todo o quarto das bandas que eu mais
gostava na vida, ele colocou músicas que eu gostava, mas que ele também
gostava. Parecia minha alma gêmea.... Parecia. A noite me levou numa praça, já
que cidade pequena não tem nada. Chegando aos 30 anos as multidões, praças,
boates, bares, e todo e qualquer tipo de aglomeração começam a incomodar. Sem
dúvidas eu preferiria ter ficado em casa, assistindo filme, debaixo das
cobertas, já que o frio de julho cortava como navalha, e gelava cada vez mais
meu nariz. Na praça os amigos dele, era pessoas muito legais, apesar de eu ser
bem anti social e evitar falar com qualquer um deles. Ficava de longe
observando e calculando quanto tempo mais eu tinha que aguentar aquilo até a
hora de ir embora. Não seria ainda muito cedo? Se eu esperasse mais uma meia
hora? Mas tínhamos acabado de chegar e eu iria me passar por chato, e
estragando a noite de alguém, coisa que sempre acontecia. Preferi não falar em
nada de ir embora e fazer cara de quem estava gostado daquilo. Daí a pouco a
polícia passou e mandou abaixarem o som. Os amigos dele, preferiram ir para
outro lugar, mas nós decidimos ficar ali, junto com uma amiga dele, que estava
me dando um pouco mais de atenção, me salvando daquela situação embaraçosa por
demais. Seguimos ela até um barzinho mequetrefe lotado de funqueiros. Não tenho
nada contra funk, eu inclusive acho importantíssimo por causa de pluralidade de
vozes, tema de meu TCC na faculdade. Simplesmente era um tipo de música que eu
não gostava. Ele foi para pista dançar, já que ele se auto intitulava
“underground”. Eu fiquei lá, encostado num canto com os olhos esbugalhados
olhando para os lados, perdido e pedindo aos Orixás que tirassem dali logo. Meu
pedido logo foi atendido, mas ele ainda queira ir onde os amigos dele estavam.
Despistamos a amiga dele e voltamos para a praça. Sentamos em um banco onde ele
ligou para um amigo dele ir nos buscar. Enquanto a carona não chegava ele se
virou para mim e disse, já percebendo meu descontentamento:
-O
problema é esse, eu gosto de sair, você não.
-Eu
até gosto, mas preciso ir embora porque amanhã o ônibus sai cedo e preciso
adiantar alguns trabalhos da faculdade. (Eu não tinha ideia do quanto eu mentia
bem). Se tivessem outros horários eu ficaria até ás 06:00 na rua.
-Vamos
ficar lá meia hora, depois vamos embora eu prometo. – Disse ele.
O
lugar, intitulado “terreno baldio”, era uma rua sem saída, com mato dos outros
três lados e no fim dela, uma caixa d’agua. Tive a infelicidade de ouvir que;
ele já tinha arrombado o portão da caixa d’agua, num dia em que estava “muito
louco”. Nesse lugar, o pessoal parava os carros, colocava som alto e ficava lá
bebendo até amanhecer. Até hoje não sei o que tem de tão interessante nisso,
mas enfim cada louco a sua loucura. Fiquei lá árduas duas horas, até que fomos
embora. Fomos para a casa dele, eu estava tão chateado, mas tão chateado que
ele esperou que transássemos, mas nem isso tive vontade de fazer, simplesmente
virei para o canto e fui tentar dormir, enquanto ele ficou lá mexendo no
celular, provavelmente a busca da próxima “presa”. Depois veio e me abraçou e
dormimos de “conchina”, mas foi a única coisa que fizemos durante a noite toda.
Ele me deu vários abrações apertados, coisa que me deixava ainda mais triste e
frustrado, por saber que seriam os últimos e únicos. Amanheceu e fomos para a
rodoviária, nem esperei o próximo ônibus, fui no que estava lá mesmo e fiz
baldeação, queria era sumir daquela humilhação toda logo. Esperava chegar lá e
encontrar um meu príncipe encantado, me recebendo com milhões de beijos e
abraços e me levando para cama pela mão, fazendo um jantar à luz de velas, com
um filminho legal e um vinho tinto suave. Ou então que me levasse ao cinema da
cidade que era ao ar livre, simplório e decadente, coisa que só me faria apaixonar
ainda mais. Mas não. A única coisa que recebi, foi um sistema operacional
Windows. Lindo, elegante, apaixonante por fora, mas um MS-DOS por dentro.
Recebi um cara, que só que queria me fazer de troféu aos amigos dele,
insinuando: “Olha quem saiu de sua cidade só para me ver”. Vi um cara festeiro
e sem nenhuma perspectiva de vida. Nada. Não sabia o que era uma bienal de arte
contemporânea, não sabia quem era Andy Wharol, Frida Khalo. Nunca tinha ido ao
MASP, mesmo já tendo ido a São Paulo. Mas de festa, boate, e shows disso ele
entedia e muito bem por sinal. Fiquei tão chateado, tão triste,
decepcionadíssimo e com um enorme buraco no coração. E dessa vez, não era culpa
de ninguém. Será do acaso, ou do destino? Não sei, mas não era minha culpa nem
dele. Ele não era errado por ser assim, mas talvez eu fosse. Fiquei chateado e
triste, por ser tão difícil achar alguém igual a mim. Mais uma vez eu água,
achei óleo. Para uma pessoa que foi ouvindo a playlist de festa, dentro do
ônibus as únicas músicas que consegui ouvir na volta foram: Falling Again
(Lacuna Coil) White Night Fantasy, While Your Lips Are Still Red (Nightwish).
Para o Rivotril fazer efeito mais rápido, chegando em casa destrocei o álbum
Imaginaerum – The Score, um convite ao choro que insiste em não cair. Após
redigir esse texto tomei um Rivotril ao som desse álbum e dormi feito uma
criança. No outro dia, fui trabalhar, e depois fui para faculdade. Me senti um
pouco melhor, na verdade muito melhor....
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