sábado, 28 de maio de 2016

Luna, e uma das mil formas de se assumir.

O segundo colegial sempre é uma história bem formidável, para os mais velhos contar.
Exceto eu. De que tinha dezesseis anos é tudo que me lembro. E, de quando conheci minha melhor amiga pra vida toda.
Luna entrou na sala. Era 10/03-dez de março.
E não sei porque. No mesmo instante, provou dos olhares de aprovação que eu encarava todos os dias.
Muito autêntica, e original. Cabelos tingidos, piercing no rosto. Camisas cortadas. Eu me identifiquei de primeira.
Em seu terceiro dia de aula, Luna e eu conversamos. E não paramos mais. Certo dia, estávamos no intervalo e Luna percebeu
a implicância dos outros alunos comigo.
-Qual o problema deles com você?
-Juro que não sei. Ela me olhou inconformada.
-Eu não intendo. Preferi mudar de assunto. Os dias foram se passando e ficamos cada vez mais próximos.Luna começou
a frequentar minha casa. Morava com meu pais.
Minha relação com eles era bem fechada. Principalmente com meu pai. Minha mãe tentava. Mais sem querer
eu não conseguia dar abertura, e me culpava muito. Ela ignorava. E era muito carinhosa.
Meu pai tentava as vezes. Mas também não fazia muita questão.
Certo dia, depois da aula, Luna pediu que eu acompanhasse a algum lugar.
Era uma praça na classe alta/média da cidade. Luna e eu bebemos, conversamos e rimos bastante.
Quando estávamos a ir embora, o assunto havia acabado. Observávamos atentamente o movimento.
-Eu sou gay! Disse sem exitar.
-Eu percebi mesmo. Cara, isso é ótimo. Vou te apresentar pra um monte de amigo, eu tenho vários amigos gays.
-A gente vai na boate...
-Luna, não. Disse. interrompendo-a
-Como assim, não o que?
-Meus pais não sabem. Contei só pra você.
-Mais não é por isso que te "excluem" no colégio?
-É sim. Eu não sei porque, nem como. Mais de alguma forma sabem.
-Então fui a primeira a saber?
-Sim.
-Cara isso é MARAA!! Ela disse abrindo um sorriso e olhando para cima.
-Eu vou contar pros meus filhos. E depois pros meu netos.
-Sua boba. Eu disse.
-Queria contar pra todo mundo. Dizer pros meus pais.
-Não aguento mais ter que viver aqui dentro. 
-Fingir ser o que eu não sou. inventar namoradas.
-E sentir medo. isso é tortura. Tenho muito medo que descobrem.
-E quero acabar com de uma vez por todas.
-Vai ser fácil. Disse ela.
-Eu comecei a frequentar sua casa, a gente fica no quarto, com a porta fechada.
-Vão te perguntar se estamos namorando.
-Aí você diz.
Analisando essa hipótese, lembrei-me de ter percebido um certo interesse, em saber da Luna, vindo da minha.
Perguntou várias coisas, há uns dias atrás.
Algumas semanas depois, estava em meu quarto, olhando meus e-mails no celular era umas 18:15 da tarde.
Minha mãe veio entregar uns lençóis que havia lavado.
-Assume. Você ta envolvido com aquela garota.
Respirei fundo. minha boca secou
-A Luna!? A Luna é minha amiga.
-Sei! Amiga! Disse ela, em tom de ironia.
Me levantei, fechei a porta. Ela me observava. Com olhar de sarcasmo.
-Mãe. Eu não gosto de meninas.
Ela me olhou com cara de quem não intendeu. Fingindo não saber do que eu falava.
-Eu nunca gostei. Eu queria falar mais eu tenho medo. Eu tenho dúvida
-Você gosta do que então? Ela alterou o tom. bem séria, e brava
Levantei a cabeça. Quase que sem paciência.
-Mãe se eu não gosto de menina. É de meninos que eu gosto.
-Eu sou gay!
Ela começou a respirar ofegante. Me deu um belo tapa na cara.
Colocou as mãos na testa
-Cala a boca. Você não me repete isso. Seu...
-Seu sujo. Seu pai...
-Eu vou falar pra ele. Você me aguarde.
Ela saiu do quarto. Fechei a porta. Fiquei dentro do quarto um tempo. Apavorado. Ouvi bater na porta.
Era meu pai me chamando pra jantar. Foi o jantar mais apreensivo de todos em minha vida.
Minha mãe mal falava. Até mesmo com meu pai Ele perguntou duas vezes o que ela tinha.
Ela respirava fundo e dizia:-Nada. Depois conversamos.
Depois do jantar os dois deitaram no sofá, como sempre faziam. Pra assistir novela. Meu pai como sempre dormiu.
Quando a novela acabou, minha mãe levantou. Foi no banheiro (que ficava em frente ao meu quarto). Ouvi a descarga,
e a pia, com a torneira aberta. Ela saiu do banheiro e foi pro quarto dela. Acendeu a luz e chamou meu pai.
Ouvi ele sentando em cima da cama, provavelmente a pedido dela. Eles cochichavam. Ficaram por muito tempo.
-O QUÊ??? Ouvi meu pai dizer. Bem alterado. 
Eles começaram a discutir. Ouvi ele caminhando no corredor.
Passou na porta do meu quarto, me encarando com um olhar ameaçador. E foi pro banheiro.Saiu do banheiro e voltou pro quarto. Eles continuavam a discutir.
Ele veio até meu quarto, bem alterado.
-Que conversa é essa?? Que a sua mãe ta falando??
Olhei pra ele. Ele estava com as sobrancelhas enrugadas. E vermelho.
-Eu só me abri com ela. Disse o que estava acontecendo. Minha mãe apareceu na porta. Chorando, confusa.
-Eu sempre fui "assim". Só disse agora.
-Ah seu moleque filho da mãe.
-Você enganou a gente o tempo inteiro. Seus próprios pais. 
-Canalha!
Eu estava tão assustado, que não conseguia decidir se eu estava fingindo que aquilo não estava acontecendo, ou se
aquilo realmente era só um pesadelo. E, eu sei, que eles sabiam. Sempre souberam. Por isso não ficaram espantados com a notícia. Sabiam que um dia a bomba ia estourar. E tudo que sentiam era ódio.
Pois naquele momento, na cabeça deles, eu acabava com a família perfeitamente correta que eles construíram.
Eu não sei como mais eu sabia que, tudo que eles sentiam era o medo e a vergonha de caminhar pela calçada do bairro,
ouvindo os comentários, e a sentença que sempre iriam carregar."-Aqueles são o Sr. Inácio e a dona Ana. Eles tem um 
filho gay." Isso nunca iam mudar.
Ele me deu um tapa na cara. Bem forte. Levou todo meu corpo pro chão.
E foi pra cozinha. Ouvi ele pagando água.
Minha mãe foi atrás. Começaram a cochichar de novo. Ouvia minha mãe falando e chorando ao mesmo tempo.
Ele veio até a porta do quarto. E me olhou
-Você!! Apontando o dedo pra mim. E franzindo os dentes.
-Você vai se arrepender.
Entrou no quarto deles, trocou de roupa. E se deitou.
Minha mãe ficou sentada umas duas horas na cadeira da mesa, da cozinha.
E depois foi se deitar também.
Pronto eu havia me assumido. Ouvindo assim, parece ter sido a coisa mais simples. Mais não. Agora,
cabia a mim esperar o que iria acontecer comigo. E com certeza, cedo ou tarde, mudanças iriam acontecer.
Os próximos dias foram os mais silenciosos daquela casa. Ninguém falava com ninguém.
Eles cochichavam na hora de dormir. Certa noite ouvi minha mãe segurando:-Vai passar!
Dado exatamente duas semanas, minha mãe voltou a falar comigo.
Pediu roupa suja, pra lavar. Ela não me encarava. E sua expressão era de quem ainda estava muito chateada.
Conversávamos apenas o necessário. 
Meu pai, nada! Ele se manteve firme.
Os dias foram se passando, minha mãe e eu conseguimos recuperar 50% da nossa antiga relação. Eu me sentia bem com isso.
Havia acabado aquela sensação de estar escondendo algo que ela precisava saber. E eu comecei um curso de cabeleireiro.
Fiz muitos amigos. Eles frequentavam minha casa, quando meu pai não estava. Minha mãe era até educada com eles. E pra mim,
o pior havia passado. Eu era um jovem gay assumido.
Certa tarde, meu pai chegava da padaria, transtornado.
-Então quer dizer que ele ta trazendo gente pra cá? Perguntou pra minha mãe.
-Quem disse isso?
-Eu fiquei sabendo. Ele respondeu.
-Ah, ele trás uns amigos aí,da escola, talvez.
-Talvez, Ana!! Ele disse, gesticulando.
-Essa gente anda tudo junto, eu não quero saber disso aqui. Essa casa é minha. Daqui uns dias tem travesti se prostituindo aqui, já imaginou?
-Eu não sei, não vejo quem são, parecem ser gente boa!
Ele chamou ela até o quarto. conversaram um pouco. Ela começou a chorar. Passado uns vinte minutos,
ela veio até mim. Ficou parada na minha frente, chorando, e me entregou um bolo de dinheiro na mão.
Tinha R$400,00.
-Seu pai mandou te dar. É pra você ir embora daqui.
-Ele disse que até o mês que vem, não quer mais ver você aqui.
-Pra onde eu vou? Perguntei, engasgando com o choro.
-Ele disse que agora que você tem amigos não vai ficar desamparado. Disse também que esse dinheiro
vai ajudar até você arrumar emprego.
Automaticamente, se faz em meu rosto uma expressão de piedade e desespero.
-Mais mãe, eu não tenho pra onde ir.
-Filho, eu não posso fazer nada. Você conhece seu pai.
-Posso falar com sua tia, se você quiser.
Demorou quatro dias. Mais consegui uma casa. Moravam dois rapazes, jovens amigos. Todos gays.
Eram cabeleireiros. Faziam curso comigo. 
No dia da minha partida, demorei oito horas pra juntar minhas coisas, fazer as malas.
Minha mãe me encheu de perguntas. E não saia de perto de mim.
Quando tudo ja estava no táxi, voltei pra pegar a última mala. E minha mãe veio até mim. Me abraçou.
-Meu filho. Ela segurou meus braços e me olhou.
-Você saiu de mim. Eu fiz você.
-Me perdoa, mais eu não posso aceitar. 
Beijei as mãos dela, e o táxi buzinou. Meu pai não estava em casa.
No decorrer dos anos, aconteceu de tudo. Um dos rapazes com quem fui morar, deixou o emprego em um salão e 
me indicou pra ser contratado no lugar dele. Ele arrumara um melhor.
Mais a gente brigou por causa de um secador. Todos os três.
Fui morar com outros amigos que fiz durante esse tempo. Eram tatuadores.
Muito legais. Um casal de amigos. A garota era lésbica.... CONTINUA....

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