Primeiro dia de faculdade. Frio na barriga. Já tinha
passado tudo aquilo antes, mas sempre sentimos essas sensações toda vez.
Ele chegou gritando, na sala. Foi um auê por conta da tal
camiseta, e como eu tinha entrado no curso bem depois, perdi o que tinha
acontecido. Ele era alto, muito magro, olhos esbugalhados, sempre escondendo o
que estava pensando. Muito enfático em suas opiniões, detestava receber críticas,
e defendia suas opiniões como uma leoa defende os filhotes. Ficava tentando
adivinhar o signo dele, isso era de extrema importância para mim. Aries, Leão,
Virgem ou Aquário. Independente de qual ele fosse, todos esses, exceto Virgem
eram meus infernos astrais. Foi bom enquanto durou, mas por outro lado o
ascendente, deveria estar falando mais alto. Retomada de esperanças.
Eu sempre passei uma imagem grotesca do garoto barbudo,
que não falava com ninguém, pintava as unhas de preto e se fechava em seu
mundo. Anti social, que queria fazer os trabalhos, que eram em grupo, sozinho,
mas era uma imagem errada que todos tinham de mim, inclusive ele. As vezes por
isso nunca falou comigo. Por medo dessa imagem que eu passava as vezes
inconscientemente.
Com todos aqueles defeitos que ele tinha, muito
escandaloso, discutia com a professora em sala de aula, fazia perguntas bestas,
comecei a pegar antipatia por ele. Meu irmão, que não perde a piada disse que
isso era amor reprimido, mas a cada dia que passava eu pegava cada vez mais
antipatia por ele.
Na aula de Teoria da Comunicação, que era uma das minhas
matérias preferidas, ele debateu com a professora, insinuando que; ela não
sabia dar aulas. Aquilo me fervilhou o sangue, minha vontade era de mandar ele
calar a boca.
Na aula de Publicidade, ele simplesmente saiu da sala,
quando o professor perguntou num tom meio debochado se ele estava bem. Tudo bem
o professor foi errado em entonar sua voz daquela maneira, mas isso era típico dele,
já deveríamos todos estar acostumados com suas gracinhas. Foi a gota d’agua.
Que garoto mal-educado, sair da sala daquela maneira. Onde já se viu isso!
Pois bem, nós em nossa vida, devemos sempre ver o outro
lado da história. Ver só não, ouvir e ter o mínimo de empatia possível. Num belíssimo
dia fatídico, já enturmado com a turma do fundo do ônibus (Fizemos até um grupo
no Facebook intitulado “Fundão do busão”), fiquei sabendo que o garoto em
questão tinha perdido o pai recentemente. Uma onda de arrependimento, tristeza
e empatia tomou conta de mim. Que remorso. Que monstro eu sou.
Aquilo me deixou completamente acabado, eu não tinha o
direito de julgar as atitudes dele, por mais que eu não concordasse com elas.
Uma vez ouvi que; precisamos sempre jogar palavras doces
ao vento ou a uma pessoa, pois um dia pode ser que; tenhamos que engolir essas
palavras. Eu engoli todas as atrocidades que tinha dito sobre ele, da pior maneira
possível. Foram amarguras com um gosto terrível.
No seminário de publicidade, eu dei um show. O professor
me chamou de artista, e vindo dele não sei se foi um insulto ou um elogio, mas
ainda prefiro acreditar que foi um elogio, pois salvei a apresentação, de um de
nossos integrantes que quase começou a pregar o evangelho no meio do seminário,
só porque eu usei um exemplo de publicidade religiosa. Ele começou a falar
sobre pregação divina, e eu na hora vi a expressão de desgosto do professor. “Preciso
consertar essa cagada”. E consertei. Comecei a falar mais sobre o tema de uma
forma mais concisa e adaptável, já que o tal integrante, não fez nada mais do
que ler um papel, e ainda sim ficar perdido em todas as falas. Trabalhos em grupo,
me fazem perceber porque o Batman, trabalha sozinho.
Enfim, o garoto dos olhos esbugalhados, me fez uma
pergunta. Isso mesmo, olhando diretamente para mim, com aquele olhar que me
deixava cada vez mais sem graça. Não para nenhum outro integrante, mas para
mim. Respondi normalmente, e ali; vi que estávamos ambos começando a nos
entender, e desconstruir toda a imagem errada que tínhamos um do outro. Isso foi
só o começo.
Na sexta-feira, prova de IPT. Era só fazer a prova e ir
embora. Foi um dia totalmente atípico, pois todo mundo se reuniu antes, até os
grupinhos que tinham rixas com outros. Não só eu e ele, mas toda a pequena
turma de publicidade começamos a nos entender. Ainda tinha o Marcos que era
pior do que eu. Barba lenhador, cara fechada, mas um doce de pessoa! Se dava
bem com todo mundo inclusive comigo, já que Marcos fazia parte da turma do
fundão do busão. Marcos chegou e me cumprimentou, e em seguida veio o garoto
dos olhos esbugalhados, que tinha uma afinidade maior com Marcos. Marcos o cumprimentou
também e com um gesto lindo de puro respeito o abraçou e beijou no rosto. O
menino dos olhos esbugalhados disse:
-Ohhh, com direito a beijinho!
Eu fiquei sem graça de não cumprimenta-lo. Estendi a mão
para ele, e apertei forte. Nisso ele me puxou para dar um beijo no seu rosto.
Foi tudo meio confuso, minha boca foi parar no pescoço dele, e vice-versa,
ainda bem que tinha tomado um banho de perfume, que vi que ele sentiu na hora.
Fiquei meio sem jeito, meio atrapalhado naquela confusão, mas ciente de que
isso já era um bom começo. Naquela hora toda a imagem de um garoto mimado,
enfático demais, chamativo, e rebelde, caiu por terra. Ele tinha seus motivos
para ser assim, assim como eu tinha meus motivos para ser chato demais. Cada uma
sabe onde a correia aperta.
Foi um dia produtivo, não o vi mais, porque acabei a
prova mais cedo do que ele, mas agora é esperar na segunda feira se haverá mais
um progresso, nessa difícil missão que é; aceitar nossas diferenças. Missão da
qual, estou adorando!

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