sexta-feira, 13 de maio de 2016

A Presa

Estava há algum tempo desempregado, desesperado por serviço. Acabei arrumando num lugar que não gostava, para fazer o que também não gostava. No primeiro dia, fiquei apreensivo, como é de costume nos empregos. Até de usar o banheiro eu fico com vergonha. Meu olhar é como uma peneira, mas isso eu faço inconscientemente. Primeiro eu avalio todas as pessoas do local. É claro que ninguém arruma um emprego para namorar, ficar ou coisa assim, mas isso são jogadas sujas do inconsciente. Depois de avaliar o ambiente, seleciono aqueles que mais me agradaram. Os quesitos chaves para a aprovação são: Simpatia, educação e humildade. O lado bom de ser pisciano (Se é que pisciano tem lado bom de ser) é que num olhar, conseguimos identificar todos esses pontos. A pessoa antipática, metida e prepotente, não olha nos olhos, e quando olha faz com desprezo, de rabo de olho, desconfiada, pronta para fazer você pensar que é menos que ela. Selecionei três. Dois loiros e um moreno. Um dos loiros exclui por falta de empatia, o moreno virou melhor amigo e o outro loiro foi o selecionado. Essa visão meio egocêntrica e as vezes mesquinha faz parecer que estamos num restaurante onde você olha o cardápio e escolhe aquilo que mais lhe agrada por simples gosto pessoal. De novo o inconsciente jogando sujo conosco. Mas escolhi o loiro pelo olhar. O olhar. Ah o olhar. Se tem uma coisa que amo mais que abraço é o olhar. Ele me olhava com simpatia, com um “que” de bondade, simplicidade e as vezes até malicia. Era diferente dos outros olhares. É fácil saber qual tipo de olhar a pessoa tem. Um olhar de curiosidade era o que mais tinha. Mas o dele não, ia muito além disso. Olhava para mim como se quisesse puxar assunto, falar alguma coisa, mas minha cara de bravo, chato e metido não permitia tal aproximação. Mas no fundo eu e ele sabíamos que na hora certa, no lugar certo pelo menos um “oi” iria acontecer. O destino é algo impressionante. A amiga dele foi trocada de setor, e teve que vir sentar bem do meu lado. Era uma pessoa extremamente simpática e educada, e de quando em quando, longe do olhar da supervisora batíamos um papo agradável. Ele passou pelo corredor e cumprimentou ela. Ela disse alguma coisa que não entendi bem, mas ele retribui com um sorriso, justo quando eu olhei, como se eu fizesse parte daquela retribuição. Fingi que não era comigo e voltei ao trabalho. Sempre que cruzava com ele, propositalmente ele lançava o mesmo olhar. As vezes de simpatia, as vezes de elegância, as vezes de querer puxar assunto. Mas eu tenho a insegurança aflorada demais, para sorrir para ele, ou dizer um oi. Se tem uma coisa que me deixa a base de Rivotril é o desprezo das pessoas, odeio ser ignorado e desagradável. Mas fico pensando se; ele tem o mesmo pensamento que o meu. E se ele estiver pensando em esperar eu chegar nele? Se ele estiver pensando em eu dar um sorrido maior ou dizer um “oi”. Ele pode estar com a resposta na ponta da língua, e ele poderá até ser o que eu esperava. Mas e se não for? E se eu tiver que conviver diariamente com ele e seu desprezo, representado pelos encontros informais da hora do almoço pelos corredores? E se eu estiver sendo autoconfiante demais? Jamais poderei conviver com outro olhar dele. Jamais poderei conviver com o olhar de “Eu te desprezei”. Não.

Pode ser que eu esteja fantasiando demais as coisas. Um olhar, não significa nada, e tudo ao mesmo tempo. É um fato corriqueiro do cotidiano. Recebemos e enviamos mais de 50 mil olhares por dia nas coisas e pessoas. Mas é que eu, adoro sofrer por antecipação, além de parcelar o sofrimento restante em 12 vezes com juros. Pode não significar nada. Pode significar apenas um “Nossa que cara estranho” ou um “Nossa que cara legal” ou até um “Que cara estupido”. Mas de qualquer forma, eu adoro me perder nos olhares dele. É muito fascinante o mistério do desconhecido. Se ele não for tão tímido e a amiga dele ser o elo que faltava para uma aproximação maior, prefiro continuar sem saber qual interesse dele comigo. Abrir possibilidades para minha mente trabalhar em cenários diferentes é muito importante pra mim. E assim eu vou indo olhando e recebendo olhares. Os dele de preferência.
 

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